Heroína(s)

heroine_poster

Heroin(e) – 2017 (Netflix)

É ISSO QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ DEIXA MULHERES NO CONTROLE CRIATIVO DOS FILMES: MARAVILHOSIDADES. Um salve para Elaine McMillion Sheldon, você é massa!

Em poucos instantes vemos como o trabalho de três mulheres se entrelaça e salva muita gente no condado de Huntington, West Virginia, que passa por uma epidemia de overdoses de heroína. Não precisou se aprofundar pra, em pouco tempo, deixar claro por quantos obstáculos cada uma passa e ainda assim não desiste de sua jornada. nós acompanhamos:

– a juíza boazinha gente boa, que leva um tribunal de drogas com mão firme mas super cuidado e carinho pra conquistar a confiança dos viciados;
– a mulher de meia-idade super cristã, que passa as madrugadas de carro pelas avenidas entregando comida, produtos de higiene e ajudando como pode prostitutas viciadas – e que faz um ponto ótimo quando comenta que somente as mulheres são presas por prostituição, enquanto os homens são liberados como se não tivessem parte no crime;
– e a primeira chefe do corpo de bombeiros mulher, que na sua luta pelo uso de uma droga específica que salva muitos da morte instantânea por overdose, tem que ver seus subordinados sem a menor vontade de usar esse recurso ou então ouvir um médico numa audiência pública dar a entender que a droga na verdade só prolonga a vida daqueles que já deveriam estar mortos…

A mensagem final é tão forte e empoderadora que só dá vontade de sair e mudar o mundo, ajudar como dá, fazer uma porcentagem do trabalho que essa gente parece estar fazendo. Amei isso aqui.

 

PS: é um CURTA METRAGEM, não dá pra esperar que vão falar de crack e outras drogas. não dá pra saber se esse povo ajuda ou não gente com esse problema, mas o curta precisa focar em algo específico ou vira um filme ruim entulhado. Está certinho desse jeito, e a parte ideológica pode ser debatida – mas o filme e seu formato não podem levar essa culpa, caso tenha.

Três Anúncios para um Crime

three_poster

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – 2017

Imagine um roteiro dos irmãos Coehn: aquelas situações absurdas, uma temática pesada e a comédia que vem de sucessivos erros e problemas com os protagonistas. Todo mundo praticamente adora. Agora, imagine que esse roteiro entrou num carro, dirigiu acima da velocidade, se meteu em um acidente violento e não houve nenhum sobrevivente. O resultado é o roteiro de Três Anúncios para um Crime.

Quando terminei de assistir esse filme, fiquei muito confusa. Primeiro tentando entender porque um filme tão cheio de falhas estava metido em todas as premiações imagináveis. Segundo, fiquei confusa com o filme mesmo. Será que era pra ser irregular e mal acabado mesmo ou o Martin McDonagh conseguiu passar o maior migué da história? Porque tem coisas que, não é possível. Não dá.

É a história de Mildred Hayes (Frances McDormand), uma moradora dessa cidadezinha aí no Missouri, cuja filha foi estuprada e queimada viva (e parece que estuprada enquanto era queimada? algo assim, bem horrível). Ela fica meses sem ter notícias da investigação e, com toda sua revolta, aluga três outdoors numa avenida isolada mas que é caminho dos policiais envolvidos no caso. E os outdoors tem os dizeres: “ESTUPRADA ENQUANTO MORRIA – E AINDA NENHUMA PRISÃO? – COMO PODE, CHEFE WILLOUGHBY?”. Isso obviamente chama a atenção da cidadezinha toda, causa revolta, gente defendendo ela, defendendo o policial, etc.

Também é a história de Dixon (Sam Rockwell), um policial racista, um cara violento, homofóbico, protegido do chefe Willoughby, filhinho da mamãe racista e durona do sul que passa o dia em casa bebendo e assistindo TV com sua tartaruga de estimação, enfim. O estereótipo de “alt-right guy” do sul dos Estados Unidos. É ele quem primeiro vê os outdoors, é ele que se envolve com o caso e ele que mais “causa” por todo o filme junto da Mildred.

(curiosamente o filme é sobre tudo e todos exceto a coitada da vítima do crime. dureza.)

À princípio eu gostei dos protagonistas. Quer dizer, não tem como gostar – é o maior agrupamento de gente horrível que já se viu em um roteiro. Ninguém em Ebbony, Missouri, se salva – talvez o filho da protagonista e o novo chefe de polícia negro (perceba que todos tem “nomes” -sqn, o que já me dá nervoso). Consigo entender quem admirou e colocou pra ganhar prêmios esse filme que mostra que pessoas horríveis podem se encontrar sendo horríveis umas com as outras, e depois podem se reconciliar, fazendo coisas horríveis umas com as outras – mas imaginando que estão em redenção (sendo que não).

O problema é o acidente que é o “humor” e certas escolhas dentro do roteiro. Por exemplo, McDonagh quer mexer com racismo, mas é superficial e só faz um desserviço ao tema. O chefe de polícia (Woody Harrelson) passa o maior pano pro Dixon, um cara que torturou um negro (cena que a gente nunca viu) porque “se acabar com policiais racistas só vai sobrar os homofóbicos” (era pra rir??) e a gente é levado a achar ele um bom cara porque ele tem… câncer? Oi?

Há a prisão com motivos escusos da amiga negra sem nome da Mildred. Ela passa uma semana na cadeia e volta DE BOAÇA pra ajudar a protagonista do filme a recolocar os tais anúncios nos outdoors – e ainda se junta do absoluto nada com o outro negro sem nome da história (o colocador de outdoors) porque… é isso que negros fazem, talvez?? Oi??

E ainda nem comento que o ex-marido da Mildred é violento e abusador (inclusive há uma cena de abuso dentro do filme), mas temos que rir porque agora ele tem uma namorada gostosona de 19 anos – que, obviamente, é burra – e ele… não bate nela?, e a Mildred ainda deu a bênção pra esse romance, tipo, O QUE???

As atuações não salvam tudo isso, mas disfarçam porque são brilhantes demais. Frances McDormand e Sam Rockwell merecem todas as indicações e prêmios que existem, porque deram o sangue para serem os piores seres humanos desta terra e me convenceram disso. Quer dizer, dentro das limitações do roteiro. Existem coisas controversas e exageradas demais (até mesmo em um mundo de exageros como esse) que me tiraram do filme algumas vezes.

Existe todo o arco do chefe de polícia canceroso, que resulta em cartinhas que temos que levar como a verdade da bondade desse povo horrível. Se Woody Harrelson falou, tá falado: o torturador burro violento e racista é uma boa pessoa, a mãe impulsiva e violenta com tendências sociopatas é uma boa pessoa, argh. Não. Não dá pra usar a voz de um policial passador de pano pra torturador como referência de moral.

Afinal, que mãe ia desejar que sua filha fosse estuprada?? Que tipo de roteiro é esse, que pior ainda, faz isso acontecer? É irreal e absurdo, feito pra chocar, sem base nenhuma. É um roteiro dos Cohen que fez a curva e bateu numa árvore, não, apenas: não.

Tem muito potencial nessa história de gente ruim sendo ruim em situações ruins? Tem sim, eu vejo isso nesse filme. Mas faltou sensibilidade, talvez, um pouco de empatia e conhecimento de causa mesmo pro McDonagh. O cara escreveu umas coisas racistas fora de mão, não entende como funciona uma mulher/mãe, achou ok em pleno 2018 chamar uma atriz 20 anos mais nova pra ser esposa do personagem do Harrelson, enfim.

A comédia sucessiva de erros está mais na produção do negócio que dentro do filme mesmo, ao meu ver. Muito triste que isso esteja indicado a qualquer prêmio além de atuações (sério, naonde que montagem, música original e ROTEIRO merecem?? eu entendi nada).

Strong Island

strong_post

Strong Island (2017) – Netflix

Quando eu estava lá no primeiro terço do filme comecei a pensar: até que ponto o diretor se colocar tanto assim dentro do filme é produtivo pra essa narrativa da morte do irmão? Seria só o caso de um ego inflado de direção ou é parte essencial desse filme? E a resposta, depois, se provou um pouco dos dois.

Com a revelação de que um telefonema no qual ele estava envolvido foi crucial para o não-julgamento do assassinato de William (o irmão), os closes e olhares diretos pra câmera ganham outros ares – como um cineasta que está utilizando essa linguagem pra lidar com a própria culpa e nós somos seus confessores. Começa a fazer um pouco mais de sentido os depoimentos às vezes terem um contra-plano do diretor ouvindo. E uma das cenas finais, em que ele deita no mesmo chão em que seu irmão morreu se torna mais forte e significativo.

Mas, ao mesmo tempo, toda a construção de mostrar as irregularidades e consequências de todo o processo perde um pouco da força. São muitas ramificações de investigação que, misturadas com momentos pessoais e detalhes da vida de William não alcançam todo o potencial de revolta que justificaria o que aconteceu com essa família.

Talvez o filme tenha sofrido por se estender muito (um média-metragem teria resolvido algumas coisas), ou talvez a montagem não foi a mais feliz… porém, ainda é um filme forte e delicado sobre a morte de um inocente, e certamente uma terapia para Yance Ford.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

androides.jpg

Do Androids Dream of Electric Sheep? – Felipe que Pênis

Ler esse livro, pra mim, foi ter uma experiência bipolar. Eu realmente fiquei fascinada pelo universo desse mundo de 1992, depois de uma guerra que fechou o céu com uma poeira radioativa, que praticamente eliminou a humanidade e os animais e fez a Terra se tornar um local desolado. Toda a filosofia e mitologia construída sobre os androides, o que são humanos, qual a linha de diferenciação e essa ideia que a empatia também pode ser forjada é muito interessante. E é ótimo também ver como o filme eliminou certos aspectos mais absurdos e construiu horrores um monte de conceitos que estão só nas entrelinhas desse universo (exceto o estupro – curiosamente, a cena de sexo do livro é realmente interessante e não um abuso sexual como no filme), enfim, é intrigante.

Mas ao mesmo tempo, se aparecia uma mulher na história, androide ou não, não dava pra suportar. Não tem como eu me interessar por Deckard quando seu caráter é misógino ao extremo, e não sendo só uma construção de personagem. Isidore também é misógino, os androides machos são misóginos, e o autor/narrador principalmente também é. Eu me incomodei horrores com as descrições psicológicas extensas de muitos personagens masculinos e SOMENTE, literalmente SOMENTE descrições físicas e muito focadas nos SEIOS das personagens femininas. Chega ao ridículo de, no meio de uma discussão filosófica entre os androides, no meio de uma fala feminina que pontuava algo crucial sobre o entendimento deles mesmos, o autor vir descrever que os seios dela eram empinados e subiam e desciam. Tipo, sério mermo? Isso me tirou totalmente da narrativa diversas vezes, me fez ficar com raiva, desiludida e destruiu meu aprofundamento na história.

É bizarro ver que um autor como Philp K. Dick (que só consigo chamar de Felipe que Pênis agora) consiga ter ideias tão futuristas e interessantes sobre a humanidade mas não consiga tratar uma personagem mulher com o mínimo de dignidade. Sofrido.

Desventuras em Série: O Lago das Sanguessugas (livro 3)

desven3.jpg

Desventuras em Série: O Lago das Sanguessugas – Lemony Snicket/Daniel Handler (Seguinte)

Dos três volumes, esse foi o mais “chatinho” de ler. Tia Josephine era chata, o ritmo da narrativa era lento, pouca coisa realmente acontece e aqui eu não consegui desapegar da maneira que o filme adaptou a história (nem consegui desver a Meryl Streep na Josephine).

Mesmo que lá no meio do livro exista um capítulo ótimo e engraçado – nas devidas proporções dramáticas – a história parece enrolada e escrita de um jeito corrido, sem cuidado. Só de pensar no filme eu lembro da cena em que a casa despenca, e em que todos os medos da Josephine se tornam reais de um jeito surreal. No livro isso não acontece… e toda a história dos medos fica num subtexto fraco de “nunca se deixe levar por suas inseguranças”.

Tem muito pouco Conde Olaf, a perna – que deveria ser um macguffin – se torna deus ex machina e o final é atrapalhado e bobo. Tudo é extremamente focado nos irmãos Baudelaire, seja na relação entre eles ou neles por eles mesmos; o que funciona pra “mensagem oficial” do livro de que eles tem apenas a si mesmos. Mas, infelizmente, já dá pra saber que poderia ter sido feito muito mais – e nessa hora fica chato ver que uma adaptação pra cinema fez melhor que uma obra com tanto potencial.